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Nossa História

História do Seminário Diocesano São José

Na segunda metade da década de 1960, os seminaristas da recém-criada Diocese de Itabira eram formados na Arquidiocese de Mariana. Todavia, em desdobramento às tensões para implantação das mudanças promovidas pelo Vaticano II, os padres da Congregação da Missão foram substituídos na direção do Seminário de Mariana por presbíteros diocesanos. Paralelamente, o também famoso Colégio do Caraça, onde estudavam leigos e vocacionados sob a orientação da Congregação da Missão, havia sofrido grave incêndio e encerrado suas atividades. Nesse contexto,

[...] para abrigar 19 remanescentes seminaristas, que já estavam no curso superior, como Newton Araújo, de Dionísio, o Lima, do Prata, o Nelson Fróes, de Ferros e outros, aluguei [o padre Otacílio Oliveira Fernandes, coordenador de pastoral de Itabira] uma casa grande no Bairro Floresta, em Belo Horizonte. Os jovens do Secretariado, para equiparem a casa, doaram camas, talheres, cadeiras, mesa etc. Nessa casa moravam os seminaristas que tiveram que enfrentar provas na Universidade Católica e Federal, fazerem cursos juntos aos alunos já existentes nas Universidades de Belo Horizonte [...] Deveriam viver do mesmo modo que todos viviam e, após os cursos comuns, se quisessem ser padres, fariam uma complementação Teológico/Litúrgica. Só então se ordenariam padres. De 15 em 15 dias, lhes prestava alguma assistência religiosa. [1]

Mas apesar da formação muito qualificada, inclusive em termos de conscientização do papel do cristão no mundo contemporâneo, a função primordial do Seminário não conseguia ser cumprida nesse modelo: “Desses, que eram 19, nenhum se ordenou padre. São hoje médicos, psicólogos, professores”. [2]

Em dezembro de 1978, diante das prementes necessidades de formação presbiteral, Dom Mário Teixeira Gurgel criou o Seminário Diocesano de Itabira–Coronel Fabriciano, que iniciou os seus trabalhos sob responsabilidade dos Fráteres da Mãe da Misericórdia. O primeiro seminarista da diocese foi Elder Luiz da Silva, da cidade de Itabira.[3] Para ingressar neste Seminário e tornar-se padre, era preciso ter vocação para o sacerdócio, condição indispensável, mas não a única. Além disso, fazia-se necessário ter concluído o antigo segundo grau, a fim de iniciar um longo percurso de formação, incluindo-se três anos de graduação em Filosofia e quatro em Teologia.

A aparente demora na constituição de um seminário na diocese de Itabira-Coronel Fabriciano – mais de 10 anos após a instalação do Bispado – poderia causar algum estranhamento, mas é facilmente compreensível diante da crise vivenciada pelos seminários logo após a promulgação do Vaticano II. O decreto Optatam Totius, promulgado em 28 de outubro de 1965, no âmbito do Concílio Vaticano II, previa que cada país tivesse sua própria Ratio Institutionis Sacerdotalis, ou seja, um regulamento da formação sacerdotal local, permitindo ainda configurações diferenciadas, que inovavam em relação ao modelo tradicional de Seminário. Sobretudo em torno dos anos 1966-1970, foram promovidas variadas e inovadoras experiências, muitas das quais, porém, passaram por um processo de radicalização e rápido desgaste, culminando em seu encerramento.

Durante algum tempo, o Secretariado da CNBB para os Seminários buscou formular uma Ratio brasileira, mas sem uma efetiva participação dos episcopados, acabou por vigorar o projeto romano Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, divulgado pela Santa Sé em janeiro de 1970. Coube então à CNBB elaborar breves normas de aplicação dessa Ratio romana ao Brasil, aprovadas em maio de 1970, e pela Santa Sé em 28 de abril de 1971. Evidenciava-se, no período, uma crise na vida presbiteral, com alto número de saídas entre os anos 1970-1975, ainda mais agravada pela dureza do regime civil-militar e sua desconfiança quanto a segmentos mais engajados da Igreja, principalmente no período 1969-1974. Aos poucos, instaurou-se entre sacerdotes e seminaristas um clima de resignação e mesmo de pessimismo. Muitos seminários foram fechados, sobretudo os menores. Apenas em 1978 o ritmo de crescimento das fundações seminarísticas voltou a crescer, em torno de 15% ao ano, viabilizando a superação, em 1982, do número de seminaristas maiores àquele vigente em 1960: 4,2 por 100.000 habitantes.

Apenas em maio de 1984, tais normas provisórias foram substituídas por “Diretrizes básicas”, mais consistentes e encarnadas na realidade brasileira, mas o contexto de formação sacerdotal, então, já era bastante distinto da década anterior, e bem mais otimista. Sucederam-se mudanças na diocese de Itabira-Coronel Fabriciano: em 1987, o Seminário teve sua sede instalada em João Monlevade, sendo reitor o padre José Miranda.[4]

Em 1994, dois anos após as orientações da exortação pós-sinodal Pastores Dado Vobis, do papa João Paulo II, a CNBB empreendeu a revisão e atualização das Diretrizes Básicas da Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil, também aprovado pela Congregação para a Educação Católica, em 1995. Também em 1992, a Congregação para a Educação Católica, a pedido do Sínodo dos Bispos de 1990, enviou uma carta circular às Representações Pontifícias, pedindo-lhes que recolhessem informações sobre eventuais deficiências e lacunas na formação dos seminários, a partir das quais foi elaborado, em 1998, um documento com indicativo de um período pré-seminário para a formação do vocacionado.

Data deste contexto a criação do Seminário Propedêutico Cura d’Ars, da diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, que funcionou primeiramente em Itabira. “Propedêutico” é uma palavra de origem grega, com sentido de “formação preparatória, instrução”, consistindo, no caso dos seminários católicos, na promoção de formação humanística e espiritual, pelo período de cerca de um ano, capacitando o jovem para o ingresso na Filosofia. Em 14 de fevereiro de 2001 foi transferido para João Monlevade, ao mesmo tempo que o Instituto Teológico deslocou-se dessa cidade para Itabira, sob a reitoria de padre Nelito Nonato Dornelas. A Filosofia continuou no Seminário São José em João Monlevade, sendo o primeiro ano cursado na Unileste, sob a reitoria do padre Francisco Neto Guerra. [5]

Era um contexto em que os padres diocesanos brasileiros haviam aumentado seu quantitativo em 82%, considerando-se o período 1970-2000. Já os religiosos perduravam em situação delicada, contanto 6% a menos que em 1970, em parte pelo regresso ao país de origem de muitos missionários, paralela à diminuição da chegada de padres vindos do exterior em porcentagem de 40%: “O número de habitantes por padre cresceu nos anos ’70 e ’80, mas se estabilizou nos últimos 10 anos. De fato, os padres eram 14.419 em 1991; cresceram desde então 16,3%, ou seja, com o mesmo ritmo de crescimento da população (15,5%). Em resumo, pode-se dizer que o clero no Brasil se tornou, nos últimos 30 anos, mais diocesano, mais brasileiro (sobretudo entre os religiosos) e mais jovem (sobretudo entre os diocesanos), mas também menos numeroso relativamente à população”. [6]

Em 2002 os estudos de Filosofia foram transferidos para a cidade de Coronel Fabriciano e a Teologia para Belo Horizonte. Inicialmente os alunos de Teologia moravam no bairro Minas Brasil e estudavam no ISTA- Instituto São Tomás de Aquino.[7] Em 2008, o Seminário de Filosofia e Teologia passou a funcionar em nova casa, situada no bairro Dom Cabral, em Belo Horizonte, com os estudos sendo seguidos na PUC-Minas.[8] Assim, descreve padre Elinei:

Olha, a nossa diocese com Dom Lara como os demais bispos que tivemos e que nós temos hoje, tem uma preocupação muito grande com a formação dos novos presbíteros. Então, Dom Lara quando chegou, ele teve essa preocupação enviando seminaristas para estudar em Belo Horizonte. Criou o seminário na Vila Tanque [João Monlevade]. Hoje a nossa formação está novamente em Belo Horizonte, estudando na PUC, tanto a filosofia [quanto] a teologia e temos também o propedêutico em Itabira. Então a formação ela tem que ser constante. […] o Dom Lara teve essa preocupação, também o Dom Odilon, agora o Dom Marco tem essa preocupação muito grande com o futuro presbítero na nossa Diocese.[9]

Nos últimos anos, o contingente de sacerdotes católicos cresceu 7,6% em todo o país, conforme o Censo da Igreja Católica no Brasil, que tem como data base o ano de 2010. Entre 1990 e 2010, enquanto o número de brasileiros aumentou em quase um terço, a quantidade de presbíteros saltou 55% e alcançou a marca de 22.119 ordenados, a maioria advinda do Nordeste. Os estudiosos apontam, como motivações para o aumento das vocações ao norte do país, o perfil mais tradicional do catolicismo, menor urbanização e força de movimentos como a Renovação Carismática, além do acesso a condições de vida mais favoráveis em regiões muito pobres.[10]

[...] perceber-se-á que a crise social, principalmente o desemprego e suas consequências, na década de 90 e na década de 2000, contribuíram para desencadear tais mudanças no campo das vocações sacerdotais. [...] Segundo dados do censo anual da Igreja Católica (CERIS, 2005), sobre o perfil do clero brasileiro, os padres vindos de famílias abastadas eram em quantidade bem menor se comparados com outros tempos. O reflexo mais acentuado dessa mudança está nos seminários, que mudaram a composição de seus quadros quanto à origem social dos seminaristas. Segundo o CERIS, a maioria das vocações sacerdotais era nesse período proveniente da zona rural (56%), seguida da zona centro - urbana (30%) e da periferia urbana (13%) [...].[11]

No início de 2015, o Seminário contava com sete estudantes no Propedêutico, oito no curso de Filosofia e dois em Teologia. Em paralelo, três seminaristas – Anderson Ferreira Teixeira, Edson Vander Fernandes Gonçalves e Ueliton Neves da Silva – concluíram a Teologia em 2014 e estão em processo de ordenação para o diaconato. Os jovens seminaristas mostram-se bastante engajados em seus propósitos de vida:

O [...] Seminário Filosófico e Teológico São José da Diocese de Itabira-Cel. Fabriciano está caminhando para uma nova etapa em sua vida missionária, a articulação do Conselho Missionário do Seminário (COMISE), que tem como objetivo fomentar a reflexão e organizar algumas ações missionárias articuladas pelos próprios seminaristas. Assim, a dimensão missionária ganha maior destaque em nossa casa de formação, proporcionando uma maior sensibilização sobre essa ação proposta pela Igreja. [...]Peçamos a intercessão de Santa Terezinha do Menino Jesus, padroeira das Missões, para que possamos testemunhar Jesus Cristo através das nossas vidas, pois só n’Ele poderemos alcançar a verdadeira felicidade.[12]

Uma vez ordenados, os presbíteros passam também a integrar a Associação do Clero da Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, criada no dia 05 de junho de 1998 e constituída em 22 de junho de 1999.[13] Um dos projetos importantes da ASSOCIF foi destinar a casa onde funcionou o seminário diocesano, em João Monlevade, para encontros do clero, bem como para hospedagem de padres idosos e daqueles em breve estada na Diocese. A proposta, apesar das dificuldades, parece estar dando certo: “Esta é um auxílio para a Pastoral Presbiteral. Precisamos abraçar de modo corajoso e grande empenho a Associação do clero. Não podemos esquecer-nos do nosso encontro mensal: toda última segunda-feira de cada mês, na casa do clero, em João Monlevade”.[14]

E ainda sob a perspectiva da formação para o ministério ordenado, a diocese de Itabira-Coronel Fabriciano inaugurou, em fevereiro de 2012, a Escola Diaconal, destinada à preparação de Diáconos Permanentes.O Concílio Vaticano II restaurou o diaconato como grau próprio e permanente da condição eclesiástica, e essa opção vem crescendo na Igreja contemporânea. No Brasil, existem atualmente mais de 1250 diáconos permanentes, tendo a primeira ordenação na Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano ocorrido em 9 de junho de 1994. Posteriormente, Luzardo da Fonseca Teixeira, o diácono assim ordenado, tornou-se padre em 1999, vindo a falecer em 2013.[15]


 

[1] Depoimento impresso do Sr. Otacílio Fernandes, gentilmente cedido pelo autor. Sem data.
[2] Depoimento impresso do Sr. Otacílio Fernandes, gentilmente cedido pelo autor. Sem data.
[3] DIOCESE DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO. Livro da caminhada. Itabira: Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, 2007. p.26.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem. p. 26; p. 16.
[6]ANTONIAZZI, Alberto. A fundação da OSIB e suas principais atividades.Disponível em <http://www.osib.org.br/osib-nacional/87-um-historico-da-osib-e-os-desafios-atuais-da-formacao.html> Acesso em 7 dez. 2014.
[7] DIOCESE DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO. Livro da caminhada. Op. Cit. p. 26.
[8] Ibidem. p. 26.
[9] Entrevista concedida pelo padre ElineiEustáquio Gomes a Júlio César Santos em 8 jun. 2014, durante a Festa da Diocese, realizada no município de Santana do Paraíso.
[10]GONZATTO, Marcelo.Número de padres está em crescimento no Brasil. Zero Hora, 05 abr. 2012.
[11] CERIS – Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais. Censo Anual da Igreja Católica no Brasil – CAIC-Br. Análise sociológica da evolução numérica da presença da Igreja no Brasil 2010. Disponível em <http://www.ceris.org.br/antigo/pdfs/analise_censo_igreja_2011.pdf>. Acesso em 7 dez. 2014. p. 8.
[12]Seminário em Missão. Disponível em <http://dioceseitabira.org.br/noticiasdiocese/seminario-em-missao/> Acesso em 7 dez. 2014.
[13]DIOCESE DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO. Livro da caminhada. Itabira: Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, 2010. p. 15.
[14]Reunião do Conselho Presbiteral,24 de julho de 2014. Apud: ARQUIVO ECLESIÁTICO DA DIOCESE DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO. Informações sobre a ASSOCIF – Associação do Clero de Itabira-Fabriciano. Extraídas do Livro do Tombo da Diocese – 2009 a 2014. 2015. Mimeo.
[15] DIOCESE DE ITABIRA-CORONEL FABRICIANO. Nota de pesar. Disponível em <http://oanunciador.com/2012/02/07/diocese-de-itabirafabriciano-divulga-nota-de-pesar-pelo-falecimento-do-pe-luzardo-da-fonseca-teixeira/>. Acesso em 7 fev. 2015: “Pe. Luzardo nasceu em 20/12/1930 em Bom Jesus do Amparo. Foi ordenado diácono em 9 de junho de 1994, foi o primeiro diácono permanente pela imposição das mãos de Dom Mário Teixeira Gurgel. Em 23/10/1999 recebeu a sagrada Ordem do Presbiterato pela imposição das mãos de Dom Lelis Lara, C.Ss.R. Atendeu nas paróquias de Ipoema, São Gonçalo do Rio Abaixo, Itambé do Mato Dentro, Senhora do Carmo, Passabém, São Sebastião e Bom Jesus do Amparo. Foi Capelão no Hospital Nossa Senhora das Dores, em Itabira”.

Fonte: Livro 50 Anos da Diocese Itabira – Cel. Fabriciano.